Início » Aparentemente, a Sony fez em 2026 exatamente o que destruiu a reputação da Microsoft em 2013, só que sem avisar ninguém

Eu preciso respirar fundo antes de grafar esse texto porque se eu encetar sem me preparar emocionalmente vou quebrar o teclado antes de chegar no segundo parágrafo.
Aconteceu alguma coisa nos últimos dias que eu, que tenho décadas de estrada no mundo dos games e já vi a indústria cometer crimes contra o consumidor em série, não esperava ver em 2026.
A Sony, a mesma Sony que em 2013 humilhou a Microsoft numa conferência da E3 que entrou pro hall da notabilidade do constrangimento corporativo, aparentemente decidiu que chegou a hora de manducar o próprio chapéu. Com calda de caramelo por cima.
Porque relatos confirmados por múltiplas fontes indicam que jogos digitais comprados no PlayStation Store para PS4 e PS5 agora têm um contador de validade de 30 dias. Trinta dias. Se você não conectar o console à internet dentro desse período, sua licença é revogada e o jogo que você comprou com moeda real simplesmente não abre mais.
Deixa eu repetir isso num ritmo mais lento pra quem está lendo enquanto toma moca: você paga, você baixa, você não conecta por um mês, e o jogo te trata uma vez que pirata.
A história começou a circundar com força depois que o modder e YouTuber Lance McDonald postou no X o que parecia ser uma tomada de tela reveladora: o menu de informações de um jogo do dedo no PlayStation exibindo campos novos chamados Valid Period (Start), Valid Period (End) e um contador de dias até o próximo check-in obrigatório.
A tomada foi tirada de Don’t Starve Together: Console Edition, mas logo outros jogadores replicaram a invenção em outros títulos, incluindo Tiny Tina’s Wonderlands. O grupo DoesItPlay, comunidade internacional dedicada à preservação de videogames, corroborou os achados e adicionou um pormenor que gelou o sangue de qualquer pessoa com consciência histórica: quando a bateria CMOS do console morre, qualquer jogo do dedo com o timer ativo se torna inacessível, mesmo que o console esteja configurado uma vez que console principal. Isso é um jogo que você comprou com moeda ontem sendo bloqueado por uma bateria de três centavos.
A mudança parece ter sido introduzida silenciosamente na atualização de firmware de março de 2026, sem enviado solene, sem nota de rodapé, sem absolutamente zero que avisasse o consumidor de que as regras do jogo tinham mudado depois que ele já tinha gasto o moeda. A Sony até o momento desta publicação não emitiu enunciação solene sobre o objecto. Nenhuma. Zero. Silêncio de corporação que esperava que ninguém fosse notar.
Agora preciso narrar uma história pra quem não estava jogando videogame em 2013, porque o contexto histórico cá é devastador. Na E3 de 2013, a Microsoft revelou o Xbox One com uma política de DRM que exigia check-in online a cada 24 horas e restringia severamente o empréstimo e a revenda de jogos físicos.
O executivo responsável, Don Mattrick, chegou a sugerir publicamente que quem não tinha entrada à internet poderia simplesmente continuar com o Xbox 360, numa frase que se tornou sinônimo de desconexão corporativa com a verdade dos consumidores. A reação foi tão intensa que a Microsoft recuou completamente antes mesmo do lançamento do console. Don Mattrick foi embora pra encaminhar a Zynga alguns meses depois, que é o equivalente executivo de ser exilado pra uma ilhéu.
E a Sony? A Sony naquele mesmo palco da E3, sem referir o Xbox pelo nome, anunciou que o PS4 funcionaria offline, rodaria jogos usados sem restrição e custaria século dólares a menos. Depois, num vídeo pequeno que acumulou 16 milhões de visualizações no YouTube, dois executivos da Sony demonstraram uma vez que compartilhar um jogo no PS4: um entregou um disco pro outro. Isso foi o humilhação mais elegante já executada numa convenção de videogame, e ficou na memória coletiva da indústria uma vez que um dos momentos mais satisfatórios da história dos consoles. Guardei esse momento no coração durante anos.
E agora a Sony está implementando exatamente o sistema que destruiu a reputação da Microsoft em 2013, só que pior. O Xbox One pedia check-in a cada 24 horas e avisou publicamente antes do lançamento. O PlayStation de 2026 está fazendo check-in a cada 30 dias, não avisou ninguém, introduziu a mudança silenciosamente num firmware, e ainda não se dignou a explicar o que está acontecendo. Pelo menos a Microsoft teve a pudicícia de ser honesta sobre o que estava fazendo.
Uma teoria circulando entre os mais compreensivos com a situação sugere que a mudança pode ter sido introduzida uma vez que resposta ao vazamento de chaves do boot ROM do PS5 no início de 2026, que abriu vulnerabilidades exploráveis por jogos digitais específicos.
A lógica seria: se o console precisa se conectar todo mês, ele obrigatoriamente recebe as atualizações de firmware que fecham essas brechas, impedindo que o sistema seja travado numa versão vulnerável. É uma explicação técnica que faz qualquer sentido num vácuo. Mas cá está o problema: ela usa o consumidor honesto uma vez que escudo contra o pirata. O jogador que comprou o jogo legalmente, que pagou o preço referto, que não fez absolutamente zero inverídico, é o que paga o pato. O pirata já encontrou outro caminho. Sempre encontra.
Isso me lembra cada sistema de proteção contra imitação que a indústria já inventou desde os anos 80. O SecuROM que corrompia instalações legítimas. O StarForce que podia danificar drives de CD. O sempre delicioso DENUVO que consome recursos de hardware de quem comprou o jogo enquanto a versão crackeada na internet roda mais ligeiro. Em todas essas situações, a epílogo foi a mesma: o DRM hostil pune o consumidor honesto e atrasa o pirata por alguns dias, no sumo. A Sony não vai vencer essa guerra com timer de 30 dias. Vai só gerar mais um argumento pra quem já tinha motivos pra não incumbir no do dedo.
Esse incidente abriu de vez uma caixa que a indústria preferia manter fechada com fita adesiva e boa vontade: você não possui os jogos digitais que compra. Nunca possuiu.
O que você compra é uma licença de uso que pode ser revogada, modificada ou extinta a qualquer momento, sob qualquer pretexto técnico ou mercantil que o detentor da plataforma considere suficiente. As lojas digitais da PlayStation, da Microsoft e da Nintendo já removeram jogos do catálogo sem aviso prévio no pretérito. A stomagemização do ror do dedo, o processo pelo qual você acumula uma livraria que na prática não pertence a você, é o padrão de negócio dominante de uma geração inteira de jogadores que cresceu comprando bits em vez de cartuchos.
Eu cresci numa quadra em que o cartucho era físico, resistia a queda, nunca precisava de servidor, e ainda funciona hoje. Meu Sonic the Hedgehog do Master System não precisa de check-in com a Sega pra rodar. Meu Golden Axe do Mega Drive não vai parar de funcionar se a bateria do relógio interno morrer. Esses jogos são meus. Completamente, irrevogavelmente, eternamente meus. Os jogos digitais que você compra hoje pertencem a você até o dia em que a empresa determinar que não pertence mais, e a única coisa que a Sony provou nos últimos dias é que esse dia pode chegar mais rápido, mais silenciosamente e com menos explicação do que qualquer um havia previsto.
A Sony precisa se pronunciar. Não com um enviado genérico de relações públicas referto de “trabalhamos continuamente para melhorar a experiência”. Precisa de uma explicação clara sobre o que foi introduzido, por quê, se é permanente, e o que acontece com os jogos já comprados quando o PS4 e o PS5 forem descontinuados e os servidores da PSN deixarem de responder ao check-in. Porque esse é o fado inevitável de toda livraria do dedo: o servidor que valida sua licença vai ser desligado qualquer dia, e quando isso ocorrer, o que resta dos seus jogos comprados é um registro inacessível numa memória interna.
A comunidade de preservação, grupos uma vez que o DoesItPlay que foram os primeiros a corroborar e detalhar o problema, está fazendo o trabalho que as plataformas deveriam fazer: documentar, testar e alertar antes que seja tarde demais pra volver. São essas pessoas que vão prometer que os jogos de 2026 ainda existam em 2046, não as empresas que os publicaram. E enquanto a Sony fica em silêncio, o mercado de mídia física, que muita gente estava comemorando uma vez que obsoleto há cinco anos, parece cada vez mais o único padrão onde você compra alguma coisa e pode incumbir que vai continuar sendo seu amanhã.
Eu vou continuar no PC. Sempre fui, sempre serei. Mas pra quem ainda acredita no ecossistema de console do dedo: compre o disco. Sempre compre o disco. Ou espere pra ver o que a Sony vai manifestar quando finalmente transfixar a boca, o que, a julgar pelo histórico recente de grandes empresas em situações assim, pode demorar mais do que o tempo do seu próximo check-in obrigatório.
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