Início » Encontraram 97 cartuchos raros de Mario num depósito

Todo tiozão dos videogames possui um radar privativo.
Ele pode entrar num brechó lotado de louça, discos de Roberto Carlos, ventiladores sem grade e aparelhos de DVD que ninguém teve coragem de jogar fora.
Portanto acontece.
No fundo da loja, por baixo de uma caixa de ferramentas, aparece uma pequena fita de plástico cinza.
O coração acelera.
A pilar dói menos.
O colesterol recua por alguns segundos.
Ele se aproxima, afasta uma panela e encontra um cartucho.
Talvez seja Super Mario Bros./Duck Hunt.
Provavelmente é.
Nos Estados Unidos, esse cartucho é quase a pomba das praças. Está em todo lugar. Veio junto do NES Action Set, que reunia console, revólver Zapper e os dois jogos no mesmo pedaço de plástico cinza. Milhões de crianças conheceram o encanador e o cachorro debochado por meio daquele pacote.
Não deveria ser uma invenção capaz de fazer colecionador perder o sono.
Só que uma caixa encontrada no estado de Wisconsin guardava 97 exemplares de uma versão nunca documentada de Super Mario Bros./Duck Hunt.
Noventa e sete.
Novinhos.
Embalados individualmente.
Com manual recluso detrás de cada cartucho.
Produzidos no término de 1993 e esquecidos durante décadas uma vez que se fossem um jogo pirata de futebol comprado na feira.
Cinco receberam nota perfeita da PSA, um tanto que nenhum cartucho de NES havia conseguido antes.
De repente, aquele objeto que todo norte-americano teve, emprestou, perdeu ou deixou tombar detrás da televisão se transformou numa relíquia.
É o sonho molhado do tiozão amante de plástico vetusto.
Sem malícia.
O plástico está dentro de uma invólucro.
A caixa chegou há murado de seis anos à OneStopWonders, loja de artigos colecionáveis administrada por Kevin Braun na cidade de Waukesha, em Wisconsin.
O vendedor afirmou que os jogos pertenciam ao avô, que teria trabalhado para uma companhia especializada em recuperação de metais preciosos.
Segundo a história, a Nintendo precisava se livrar rapidamente de um estoque. Em vez de destruir os cartuchos, teria vendido o material por uma quantia modesta à empresa, que pretendia retirar o ouro das placas internas.
Parece verdade?
Não.
Parece a conversa daquele sujeito que aparece no grupo de retrogames anunciando:
“RARIDADE TOTAL, VEIO DE EX-FUNCIONÁRIO DA NINTENDO, NÃO EXISTE OUTRO NO MUNDO.”
Depois alguém pesquisa por dois minutos e encontra 46 unidades no Mercado Livre.
Até Jason Ganos, responsável pelo site Nintendo Wire e colecionador há duas décadas, achou a história difícil de engolir. Ele conheceu Braun enquanto ajudava a reparar máquinas de pinball. Durante a conversa, o lojista comentou que havia videogames antigos acumulando poeira no repositório.
GameCube.
Super Nintendo.
Zero fora do normal.
Portanto mencionou a caixa.
Essa frase sempre termina em problema financeiro para o colecionador.
Três etiquetas em inglês e nipónico apareciam na embalagem. Uma delas indicava envio em 1º de dezembro de 1995. Outra informava o teor: 100 unidades de Super Mario Bros./Duck Hunt para NES.
Dentro restavam 97.
Ninguém sabe onde foram parar as outras três.
Talvez tenham sido abertas.
Talvez alguém tenha levado para morada.
Talvez estejam hoje numa gaveta, misturadas com pilhas vazadas, chaves que não abrem zero e um carregador de Nokia esperando o retorno triunfal da marca.
Essa é a segmento maravilhosa do colecionismo.
Um objeto pode estar medido em milhares de dólares.
Também pode estar sustentando uma mesa manca na morada de alguém.
Ganos abriu a caixa e encontrou os cartuchos embalados em saquinhos individuais, do mesmo tipo utilizado nos pacotes oficiais do NES. Detrás de cada unidade havia um manual inviolado.
A primeira reação dele foi bastante razoável:
“Isso não deve valer grande coisa.”
Super Mario Bros./Duck Hunt é um dos cartuchos mais conhecidos e distribuídos do NES. Não era Nintendo World Championships. Não era protótipo de jogo cancelado. Não havia etiqueta escrita à mão por Shigeru Miyamoto durante um eclipse.
Era Mario e o cachorro rindo da sua incapacidade de ajustar um pato.
O feijoeiro com arroz do Nintendinho.
Ganos colocou imagens do material num grupo de colecionadores no Facebook.
Esperava alguma curiosidade.
Talvez dois comentários.
Um sujeito perguntando se vendia separado.
Outro oferecendo troca por um PlayStation 3 com defeito e volta em verba.
Em vez disso, recebeu contato de profissionais ligados a empresas de autenticação. Eles perceberam detalhes incomuns e pediram fotografias dos rótulos, manuais e placas internas.
A hipótese apresentada era simples:
Ou os cartuchos eram falsos.
Ou ninguém havia visto aquela versão antes.
O rótulo traseiro era dissemelhante.
Havia dois idiomas.
O manual trazia textos, informações e datas que não coincidiam com as versões conhecidas.
Até a placa interna mudava, incluindo inscrições ausentes nos cartuchos comuns. Os manuais apontavam para uma fabricação no término de 1993, tornando o lote uma das últimas produções documentadas dessa coletânea.
Ganos apagou a publicação.
Correto.
Quando especialistas começam a expor que você talvez tenha encontrado um tanto único, a primeira providência é tirar a foto da internet.
A segunda é não atender ligações de números desconhecidos.
A terceira é verificar se aquele seu camarada “que entende muito de coleção” não apareceu misteriosamente na porta com uma mochila vazia.
Ganos colocou todos os exemplares numa mala e voou até a Califórnia para levá-los pessoalmente à PSA.
Imagino a cena no aeroporto.
O agente de segurança abre a bagagem.
Encontra 97 cartuchos idênticos de Super Mario Bros./Duck Hunt.
Olha para Ganos.
Olha novamente para os cartuchos.
— Senhor, poderia explicar isso?
— Evidente. São variantes inéditas produzidas em 1993, com rótulo bilíngue e placas desconhecidas.
Silêncio.
O agente labareda outro funcionário.
— Encontramos um traficante de Mario.
Ganos contou que passou a viagem preocupado com a possibilidade de alguém desmontar ou danificar o material durante uma inspeção. Considerando uma vez que malas são tratadas em aeroportos, o temor era razoável.
Um carrinho de bagagem passando sobre a caixa poderia transformar uma invenção histórica numa edição extremamente limitada de quebra-cabeça.
Os 97 exemplares chegaram inteiros.
A PSA confirmou a autenticidade do lote.
A história improvável do repositório possuía, finalmente, uma caixa enxurrada de evidências bastante reais.
Os resultados da avaliação foram absurdos.
Sessenta cartuchos receberam nota 9,8.
Trinta e um ficaram com 9,6.
Um recebeu 9,4.
Cinco alcançaram a nota máxima: 10.
Até portanto, a PSA nunca havia facultado uma nota 10 a um cartucho de NES. A empresa também decidiu numerar toda a coleção e encapsular cada unidade ao lado do respectivo manual, outro procedimento inédito para ela.
O plástico merece boa segmento do crédito.
Não o plástico do cartucho.
O saquinho.
Claire Shelton, responsável pela espaço de videogames da PSA, explicou que até poeira pode gerar riscos e marcas microscópicas ao longo dos anos. A embalagem simples evitou atrito e preservou superfícies que normalmente apresentariam defeitos naturais de fabricação ou armazenamento.
Ou seja, a tecnologia responsável por salvar os objetos históricos foi:
Um saquinho transparente.
Não havia controle de umidade desenvolvido pela NASA.
Nenhum campo magnético.
Nenhum monge nipónico vigiando a temperatura durante 30 anos.
Só plástico protegendo plástico.
O sonho industrial dos anos 1980.
Hoje reclamamos que o mundo está referto de plástico.
Naquela quadra, o plástico era sinal de porvir.
Controle de plástico.
Console de plástico.
Carrinho de plástico.
Robô de plástico.
Copo de plástico com personagem gravado.
Se o resultado amarelecesse depois de dez anos, melhor ainda. Significava experiência.
Quem cresceu nos anos 1980 desenvolveu uma relação meio doentia com objetos eletrônicos antigos.
Não basta olhar.
Precisa pegar.
O peso importa.
A textura importa.
O som da peça ao ser colocada sobre a mesa importa.
Plástico vetusto possui linguagem própria.
Controle de Atari tem um fragor.
Cartucho de Master System tem outro.
Fita cassete possui aquele “clac” que nenhum registo do dedo conseguiu substituir.
Disquete entra no drive com domínio.
Cartucho de NES faz um som sedento, industrial, uma vez que se estivesse sendo inserido numa máquina responsável por lançar míssil.
Depois você abaixa a bandeja.
Aperta Power.
A tela pisca.
Zero acontece.
Retira o jogo.
Sopra.
Coloca novamente.
Funciona.
Ciência dos anos 1980.
Não me venha explicar sobre oxidação, umidade ou mau contato. Nós sopramos cartucho durante décadas e sobrevivemos.
Talvez os cartuchos não tenham sobrevivido tão muito.
Mas nascente é outro objecto.
Esses 97 exemplares nunca enfrentaram a boca de uma muchacho impaciente.
Nunca foram segurados pela borda usando dedos cobertos de salgadinho.
Nunca receberam uma etiqueta de locadora.
Nenhum deles ganhou “JOÃO” escrito com caneta permanente.
Não há resto de adesivo indicando:
DEVOLVER ATÉ SEGUNDA — MULTA POR DIA.
Isso, para um cartucho vetusto, equivale a passar a vida num mosteiro.
A perdão da história está no contraste.
O teor do cartucho não mudou.
Super Mario Bros. continua sendo Super Mario Bros.
Duck Hunt continua exibindo o cachorro mais debochado da história.
Nenhuma tempo secreta apareceu.
Mario não ganhou arma.
O pato não pede desculpas.
O que torna essas unidades valiosas são pequenos detalhes físicos: a fabricação tardia, a embalagem original, o manual fixado detrás, a placa interna desconhecida e o rótulo traseiro bilíngue.
A frente é reconhecível.
O tesouro está detrás.
Isso resume perfeitamente o colecionismo avançado.
Uma pessoa normal olha para dois cartuchos e diz:
— São iguais.
O colecionador aproxima a lente.
Respira fundo.
— Não. Oriente possui o código de revisão deslocado dois milímetros para a esquerda, a manancial do endereço é ligeiramente mais grossa e o parafuso pertence ao lote fabricado numa quinta-feira depois do almoço.
A esposa olha.
— São iguais.
O casório entra em crise.
Mas são justamente essas diferenças que documentam uma vez que um resultado foi fabricado, revisado e distribuído. Uma versão desconhecida pode revelar uma lanço da história industrial que não apareceu em catálogos, propagandas ou arquivos públicos.
O cartucho deixa de ser unicamente jogo.
Vira documento.
Um documento grosso, cinza e capaz de rodar Duck Hunt.
Essa é a grande pergunta.
A Nintendo costumava produzir revisões em quantidades muito maiores, principalmente para um título distribuído em milhões de unidades. Gerar rótulo, documentação e placa diferentes para unicamente 100 cartuchos seria uma decisão bastante estranha.
Talvez mais unidades tenham existido.
Talvez o lote fosse uma exemplar.
Talvez estivesse ligado a qualquer procedimento de distribuição ou descarte.
Talvez outras caixas tenham sido destruídas para restaurar metais.
Ainda faltam respostas.
A data também labareda atenção.
Os cartuchos teriam sido produzidos no término de 1993, quando o Super Nintendo já estava no mercado. A caixa, porém, apresenta uma data de envio de dezembro de 1995, tempo final da vida mercantil do NES nos Estados Unidos.
Era uma vez que encontrar em 1995 um carregamento novinho de fitas para TK90X.
Você ficaria emocionado.
Também perguntaria quem havia esquecido de enviar aquilo dez anos antes.
O mistério aumenta o valor.
Colecionador adora duas coisas:
Objeto vasqueiro.
História que ninguém consegue explicar completamente.
Quando as duas aparecem juntas, o cartão de crédito começa a suar.
Três cartuchos serão oferecidos pela Goldin Auctions a partir de 12 de agosto, com o fechamento previsto para 9 de setembro. A estimativa inicial coloca cada unidade na fita de milhares ou dezenas de milhares de dólares, dependendo da nota e da disputa entre compradores.
O resultado será interessante porque ninguém sabe exatamente uma vez que o mercado avaliará o lote.
Por um lado, temos uma versão inédita.
Estado de conservação sensacional.
Documentação.
Autenticação.
Uma história maravilhosa.
Do outro, existem 97 unidades.
Raridade é um noção relativo.
Encontrar um cartucho único faz colecionadores arrancarem os cabelos.
Encontrar 97 reduz um pouco o efeito de “último réplica da humanidade”.
Ainda assim, unicamente cinco receberam nota 10.
Cinco.
Número perfeito para prometer que seis milionários decidam precisar de um.
É logo que leilão funciona.
O objeto vale determinada quantia até duas pessoas ricas desenvolverem uma inimizade pessoal por motivo dele.
A partir daí, qualquer lógica é desligada.
— Dou dez milénio.
— Onze.
— Doze.
— Quinze.
— Vinte.
— Você nem gosta de Mario.
— Agora sabor.
Existe uma discussão inevitável.
Videogame foi feito para jogar.
Correto.
Mas ninguém deveria terebrar um desses exemplares unicamente para desvendar se o World 1-1 continua igual.
Continua.
Existem milhões de outras cópias.
Há relançamentos.
Emulação solene.
Serviços digitais.
Versões disponíveis em plataformas modernas.
Você não precisa remover um artefato preservado há mais de três décadas para esmigalhar o primeiro Goomba.
Esse cartucho já não ocupa unicamente a função de software.
Ele representa um lote ignoto, uma variação de fabricação e um momento da história da Nintendo.
Encapsular faz sentido.
Ao mesmo tempo, existe um tanto profundamente engraçado em transformar o videogame — objeto criado para interação — numa peça que nunca mais poderá entrar num console.
O cartucho recebe nota.
Entra numa caixa acrílica.
Vai para um cofre.
Passa décadas sem satisfazer sua função.
É uma vez que calcular um vinho vasqueiro pela garrafa e proibir qualquer pessoa de desvendar se o teor virou vinagre.
Mas alguém precisa preservar essas coisas.
Não precisa ser eu.
Eu abriria.
Colocaria no NES.
Sopraria por hábito.
A comunidade inteira me caçaria com tochas.
Melhor deixar com profissionais.
Nos anos 1980 e 1990, embalagem possuía uma função muito clara:
Ser destruída.
Você abria o presente.
Rasgava o plástico.
Amassava a caixa.
Jogava o manual num esquina.
Em quinze minutos, o cartucho já estava funcionando.
Não existia pensamento de investimento.
Nenhuma muchacho dizia:
— Mãe, mantenha o lacre. A nota PSA poderá ser importante quando eu tiver 50 anos.
O manual era lido no carruagem, durante a volta para morada.
Chegava com ponta dobrada.
Às vezes recebia ilustração.
A caixa servia para velar outros objetos ou desaparecia numa mudança.
Por isso materiais intactos ficaram raros.
Não porque tenham sido produzidos em pequenas quantidades, mas porque ninguém tratava brinquedo uma vez que patrimônio.
Nós tratávamos uma vez que brinquedo.
E estávamos certos.
Videogame vetusto ficou valioso porque as pessoas usaram, amaram, quebraram, emprestaram e perderam quase tudo.
A raridade nasceu da diversão.
Hoje alguns compradores adquirem jogos já pensando no valor porvir. Guardam em plástico, controlam temperatura e acompanham leilões.
Talvez ganhem verba.
Mas nunca viverão o prazer de redigir senha de Mega Man num pedaço de papel que a mãe jogará fora na limpeza de domingo.
Existem perdas que nenhuma nota 10 consegue medir.
A suposta origem do lote oferece uma ironia maravilhosa.
Os cartuchos teriam sido entregues a uma companhia de recuperação para que o ouro das placas fosse tirado.
Imagine destruir 100 cópias de uma versão inédita para restaurar uma quantidade minúscula de metal.
Seria uma vez que liquefazer moedas antigas para fabricar um puxador de gaveta.
Por sorte, os exemplares sobreviveram.
Ficaram guardados.
Mudaram de mãos.
Passaram seis anos acumulando poeira numa loja até alguém interessado resolver olhar com atenção.
O ouro continuava lá.
Só não estava na placa.
Estava no plástico cinza.
A empresa queria metal valioso.
Recebeu história dos videogames.
E quase passou tudo no triturador.
Gostamos de imaginar que tudo relacionado ao NES já foi documentado.
O console foi estudado durante décadas.
Colecionadores abriram cartuchos.
Catalogaram placas.
Compararam rótulos.
Registraram códigos.
Criaram bancos de dados maiores que os sistemas usados por algumas prefeituras.
Mesmo assim, uma versão inteira apareceu dentro de uma caixa num repositório de Wisconsin.
Noventa e sete unidades.
Não uma.
Noventa e sete.
Isso significa que outras coisas podem continuar escondidas.
Protótipos.
Manuais.
Lotes de teste.
Artes originais.
Documentos de produção.
Jogos cancelados.
Caixas esquecidas nos fundos de empresas.
A maior invenção da história dos videogames talvez esteja neste momento servindo de escora para um micro-ondas.
O problema é que, depois desta notícia, todo mundo começará a olhar para o repositório da família com esperança.
Abrirá 42 caixas.
Encontrará roupa mofada.
Revista de programação.
Fita VHS de casório.
Um Dynavision sem manancial.
Três cartuchos de futebol pirata.
Zero de Mario vasqueiro.
A arqueologia não garante recompensa.
Às vezes você encontra unicamente o manual do videocassete.
Guarde.
Em 2050 pode receber nota 9,8.
Eu faço piada com colecionador porque sou um deles em espírito.
Talvez não possua uma sala climatizada enxurrada de jogos selados.
Mas entendo o sentimento.
Um cartucho vetusto não é unicamente plástico.
É o sábado de manhã.
É a televisão de tubo.
É o botão do via 3.
É o controle com fio atravessando a sala.
É alguém passando na frente justamente durante o salto difícil.
É a mãe dizendo para desligar porque a imagem podia “marcar a televisão”.
É o pai perguntando por que aquele aparelho custava tão dispendioso se só fazia bonequinho pular.
O objeto guarda tudo isso.
Mesmo quando o nosso cartucho está riscado, amarelado e com o nome de outra muchacho escrito detrás.
Talvez principalmente nesses casos.
As 97 unidades encontradas não possuem marcas de uso.
São cápsulas de um pretérito industrial.
Permaneceram perfeitas.
Bonitas.
Intocadas.
O meu cartucho ideal, porém, tem cicatriz.
Etiqueta de locadora.
Parafuso mexido.
Plástico gasto onde a mão segurava.
Porque ali existe vida.
Nota 10 é impressionante.
Mas nota 7,5 com “MARCELO” escrito detrás conta uma história melhor.
Super Mario Bros./Duck Hunt foi criado para popularizar o NES, oferecendo duas experiências num único cartucho: plataforma e tiro com a Zapper. Tornou-se segmento inseparável da memória do console nos Estados Unidos.
Décadas depois, uma versão desconhecida saiu de uma caixa e virou peça de luxo.
Mario sempre soube transformar moeda em vida.
Agora transformou plástico em aposentadoria.
O cachorro de Duck Hunt passou anos rindo quando errávamos o disparo.
Está rindo novamente.
Desta vez, porque alguém poderá remunerar dezenas de milhares de dólares por um jogo que normalmente aparece solto no fundo de lotes de garagem.
A diferença está no rótulo traseiro.
No manual.
Na placa.
Na embalagem.
Na história.
No estado de conservação.
E no veste de dois colecionadores ricos provavelmente desejarem a mesma unidade.
No dia 12 de agosto, três cartuchos entrarão em leilão.
Eu acompanharei de longe.
Com meu moca.
Minha dor na lombar.
E aquela certeza de tiozão que passou a vida acumulando plástico vetusto:
Joguei fora justamente as coisas que ficariam caras.
Guardei somente cabo que não serve em aparelho nenhum.

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