Início » Hell is Us Review: atmosfera densa e combate brutal

Lá nos anos 80, quando eu jogava Prince of Persia no PC XT com monitor de fósforo verde e som de beeper que parecia um micro-ondas morrendo, eu achava que já tinha visto de tudo. Hoje, quarenta anos depois, me aparece Hell is Us, um jogo que tenta ser cult, filosófico e diferentão, mas que, no fim das contas, me fez lembrar daquele sobrinho que faz faculdade de artes: cheio de boas ideias, mas sem saber direito o que fazer com elas.
Não me entenda mal — o game tem seus méritos (e são muitos). Ele traz uma atmosfera densa, um combate que te faz suar frio e uma pegada que lembra mistura de Dark Souls com aqueles filmes franceses em preto e branco que a gente finge que entende. Mas também tropeça bonito: algumas escolhas de design parecem tiradas de manual de como complicar o que poderia ser simples. Bora destrinchar isso com calma, porque tiozão aqui tem tempo.
Você assume o papel de Rémi, um soldado da paz que chega a Hadea, um país fictício devastado por guerra civil. Até aí, já temos uma premissa que poderia render fácil um Spec Ops: The Line versão indie. Mas o jogo vai além e enfia no meio criaturas sobrenaturais surgidas na tal da Calamidade. E claro, Rémi não está ali só pela missão oficial: ele tem drama pessoal, lembranças de infância e uma busca pelos pais desaparecidos.
A sacada interessante é o tom enigmático da narrativa. Logo no início, você é jogado em um interrogatório que já te deixa mais confuso do que manual de videocassete dos anos 90. Morreu contra um inimigo? O cara do interrogatório fala que não foi assim que aconteceu. Daí você fica pensando: “ué, então tô jogando ou tô assistindo Sessão de Terapia interativa?”. Isso cria aquela pulga atrás da orelha, e vou ser justo: é um ponto positivo.
O problema é que os personagens secundários são tão marcantes quanto figurante de novela das seis. Você até esquece deles, o que complica quando o jogo exige que você lembre quem é quem para avançar.
O grande marketing de Hell is Us é “não tem mapa, não tem bússola, siga seus instintos”. E olha, eu, que já me perdi tentando achar a fase 3 de Doom em disquete pirata, fiquei animado. Só que na prática não é bem assim. O jogo até coloca uma bússola pra você, meio sem graça, quase inútil, mas que existe.
O que realmente funciona é a exploração. Cada região de Hadea está cheia de quebra-cabeças, segredos e tesouros. Tem até o esquema de viajar com um APC, um veículo militar que serve como “mapa vivo”: você escolhe regiões a partir dele, desbloqueadas conforme conversa e avança com NPCs. Isso dá aquela sensação de mundo fragmentado, mas ao mesmo tempo coeso, bem no estilo Metroid Prime.
E aqui entra uma coisa que gostei: os diálogos. Não são só enfeite. NPCs dão dicas vagas, tipo “vá para onde o sol se põe, depois da ponte quebrada”. Parece besteira, mas obriga você a prestar atenção. E isso, meus amigos, é raro em tempos de GPS até em jogo medieval.
Visualmente, Hell is Us é aquele prato que vem bonito mas sem tempero uniforme. As paisagens são de cair o queixo, principalmente em modo qualidade. Florestas, ruínas e até os monstros têm design interessante, quase grotesco, que me lembrou obras de Giger. Mas aí você encontra um NPC com cara de boneco de PS3 e pensa: “ué, mudou a geração no meio do diálogo?”.
O contraste entre cenários incríveis e personagens meio feios quebra o clima às vezes. Nada que mate a imersão, mas é aquele detalhe que separa jogo bom de jogo memorável.
Agora vamos ao que interessa: sair no braço com os Hollow Walkers. O combate de Hell is Us não é Soulslike, mas pega emprestado algumas ideias: barra de vigor, esquiva e golpes carregados. Rémi tem duas opções básicas — ataque normal e carregado — mais a tal Energia Límbica, que permite recuperar vida se você acertar os inimigos na sequência certa. Legal, criativo, mas depois de algumas horas já vira rotina.
A cereja do bolo é o drone KAPI, que funciona como lanterna e ajudante de combate. Dá até para distrair inimigos, o que salva a pele em situações tensas. Os glifos, upgrades para armas e o próprio KAPI, também trazem variedade. Mas vou ser sincero: depois de um tempo, parecia que eu estava repetindo as mesmas combinações.
Os inimigos são grotescos, dignos de pesadelo: humanoides brancos sem rosto, ligados a criaturas menores por cordões umbilicais. Derrotar os Haze primeiro é obrigatório, senão a luta vira um inferno. É intenso, é desafiador, mas não dá para negar que cai na mesmice.
Hell is Us é aquele tipo de jogo que tenta ser ousado, e só por isso já merece respeito. Ele cria uma atmosfera própria, exige atenção do jogador e entrega momentos intensos que lembram porque a gente ama videogame desde os tempos em que jogava em monitor de tubo de 15 polegadas. Mas, como tiozão sincero, digo: o jogo podia ser mais. Ele esbarra na própria ambição e deixa a desejar em repetição e personagens sem brilho. No fim das contas, Hell is Us é como aquele churrasco em que a carne está boa, a cerveja está gelada, mas o pão de alho queimou. Você aproveita, se diverte, mas fica pensando no que poderia ter sido perfeito. Um bom jogo para quem gosta de atmosferas densas e combates brutais, mas não espere uma revolução.

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